Os sentimentos já não se guardam no interior dos envelopes. As
palavras escasseiam nas pequenas folhas de papel dobradas em três. Pobre
papel… Este, sentindo-se rejeitado, permanece nos blocos, envelhecido e
desgastado, ansiando pelo toque da esfera de metal que nunca passa para
deixar um rasto de tinta, para deixar a marca de um grande amor.
O tempo escasseia para que se escrevam grandes prosas românticas. E
já não há quem aguente a espera pela chegada das palavras de amor. Os
dedos irrequietos percorrem as teclas do telemóvel, o teclado do
computador, não há tempo a perder. Se a mensagem de amor não é
respondida de imediato é porque algo de fora do normal teve lugar. Os
pensamentos soturnos abrem caminho na mente envenenada de amor: ficou
sem bateria? O saldo acabou? A Net caiu? Já não me ama?! Só há descanso
depois do pequeno envelope começar a piscar de novo no ecrã minúsculo.
As folhas em branco têm saudades de serem amarrotadas e deitadas fora
em ataques de falta de inspiração. Os envelopes têm um desejo
masoquista de sentirem a lâmina a rasgar parte de si, de serem abertos
pelas mãos trémulas do enamorado ansioso, depois de dias, semanas de
espera. Se não há inspiração basta um delete. Para abrir a esperada mensagem de amor um clique é suficiente. Já não há encanto?
Dantes o amor parecia mais real, cara-a-cara, corpo a corpo e por carta.
Será? E se uma carta de amor for sempre uma carta de amor,
independentemente do meio pelo qual é enviada? E se as grandes prosas de
amor forem enviadas em tamanho de quatro mensagens ou num e-mail
bastante pesado? Talvez o conteúdo não mude. Talvez apenas os meios se
alterem, mas os sentimentos permanecem os mesmos.
Publicado originalmente no
Esta Jornal, 23 Dezembro 2010